Meu bebê virou aluno
15/02/2007 | « voltar
Meu bebê virou aluno
A primeira ida à escola causa angústia nos pais. Educadores sugerem técnicas para ajudar as famílias nessa fase de adaptação
A estréia dos filhos no ambiente escolar nem sempre é fácil. A alegria em vestir o uniforme pela primeira vez e arrastar a mochila de rodinhas corre o risco de acabar no momento de dar tchauzinho aos pais. Nessa hora, o sorriso costuma dar lugar ao berreiro que se justifica pelo turbilhão de emoções provocadas pela novidade. O afastamento dos familiares dá à criança a certeza de que ela perdeu o posto de reizinho para se tornar mais uma entre tantas que disputam a atenção do professor. “Ir para a escola costuma ser o divisor de águas entre a célula segura da família e o mundo ainda não explorado”, considera a psicanalista infantil Ana Olmos. Diante dessa situação, muitos pais sentem-se inseguros e, às vezes, sofrem mais do que os filhos. Eles experimentam o desafio de deixar sua preciosidade em um lugar até então desconhecido. "E se errarem com meu filho? E se ele sentir saudade de mim? E se ele se machucar? Todas essas questões angustiam e são compreensíveis", explica a psicanalista.
Para amenizar a árdua fase de adaptação, as escolas se armam de estratégias. O objetivo é acolher os novos alunos e, principalmente, os pais. "Adaptação é confiança e segurança. E não necessariamente sinônimo de criança feliz", diz Marcelo Cunha Bueno, coordenador pedagógico da escola Estilo de Aprender, em São Paulo. Ele explica que o choro é comum nesse período e o papel dos educadores é integrar a criança ao novo ambiente. Em vez de ir direto para a sala de aula, o aluno desse escola compartilha com os pais as brincadeiras no tanque de areia. Só então participa de atividades com outras crianças. Passar alguns dias na escola com a filha Clarice, de um ano e sete meses, foi fundamental para que a mãe Fabiana Barcinski, editora de livros infantis, se sentisse mais confiante. "Vou embora sem olhar para trás. Ela ó chorona", conta.
Vale tudo para tentar deixar os pais mais tranqüilos. No colégio paulistano Elvira Brandão, enquanto os adultos permanecem numa sala de reunião, as professoras tiram fotos digitais dos filhos e as levam até eles. "Os pais não devem entrar na sala de aula para não desencorajar a criança", diz a coordenadora pedagógica Alessandra Vicente Lee. Educadores são unânimes em afirmar que a maior dificuldade dos pequenos em lidar com o início das aulas se deve à ambiguidade dos sentimentos dos pais que variam entre a exaltação e a angústia. Afinal, é a primeira separação entre pais e filhos das muitas que ainda hão de vir. "Lembro-me da mãe de uma menina que insistia em que ela entrasse na escola ao mesmo tempo que a abraçava angustiada", conta o pediatra Leonardo Posternak. Apesar do apoio dos educadores, a determinação dos pais é essencial. “A Natália é tímida e fica aos prantos quando eu saio. Mas não posso esmorecer”, reconhece a mãe, a arquiteta carioca Andréa Veras de Oliveira Mendonça. Andréa passa horas na escola com a filha de três anos. Como tantas mães, ela vive o desafio de admitir que a ausência materna ou paterna pode ser benéfica. É na escola que as crianças aprendem a dividir, a sentir saudade, a resolver conflitos, a desculpar e a pedir desculpas, a brigar e a chorar. Perceber a importância dessas experiências é a senha para transformar os momentos na escola em alegria. "É preciso entender esse período como a conquista da autonomia, da identidade da criança", conclui Ana Olmos. E sem pai nem mãe para pegar no pé.
LUCIANA FRANCA
Colaborou Camilo Vannuchi
ISTOÉ/1946 – 14/02/2007
A primeira ida à escola causa angústia nos pais. Educadores sugerem técnicas para ajudar as famílias nessa fase de adaptação
A estréia dos filhos no ambiente escolar nem sempre é fácil. A alegria em vestir o uniforme pela primeira vez e arrastar a mochila de rodinhas corre o risco de acabar no momento de dar tchauzinho aos pais. Nessa hora, o sorriso costuma dar lugar ao berreiro que se justifica pelo turbilhão de emoções provocadas pela novidade. O afastamento dos familiares dá à criança a certeza de que ela perdeu o posto de reizinho para se tornar mais uma entre tantas que disputam a atenção do professor. “Ir para a escola costuma ser o divisor de águas entre a célula segura da família e o mundo ainda não explorado”, considera a psicanalista infantil Ana Olmos. Diante dessa situação, muitos pais sentem-se inseguros e, às vezes, sofrem mais do que os filhos. Eles experimentam o desafio de deixar sua preciosidade em um lugar até então desconhecido. "E se errarem com meu filho? E se ele sentir saudade de mim? E se ele se machucar? Todas essas questões angustiam e são compreensíveis", explica a psicanalista.
Para amenizar a árdua fase de adaptação, as escolas se armam de estratégias. O objetivo é acolher os novos alunos e, principalmente, os pais. "Adaptação é confiança e segurança. E não necessariamente sinônimo de criança feliz", diz Marcelo Cunha Bueno, coordenador pedagógico da escola Estilo de Aprender, em São Paulo. Ele explica que o choro é comum nesse período e o papel dos educadores é integrar a criança ao novo ambiente. Em vez de ir direto para a sala de aula, o aluno desse escola compartilha com os pais as brincadeiras no tanque de areia. Só então participa de atividades com outras crianças. Passar alguns dias na escola com a filha Clarice, de um ano e sete meses, foi fundamental para que a mãe Fabiana Barcinski, editora de livros infantis, se sentisse mais confiante. "Vou embora sem olhar para trás. Ela ó chorona", conta.
Vale tudo para tentar deixar os pais mais tranqüilos. No colégio paulistano Elvira Brandão, enquanto os adultos permanecem numa sala de reunião, as professoras tiram fotos digitais dos filhos e as levam até eles. "Os pais não devem entrar na sala de aula para não desencorajar a criança", diz a coordenadora pedagógica Alessandra Vicente Lee. Educadores são unânimes em afirmar que a maior dificuldade dos pequenos em lidar com o início das aulas se deve à ambiguidade dos sentimentos dos pais que variam entre a exaltação e a angústia. Afinal, é a primeira separação entre pais e filhos das muitas que ainda hão de vir. "Lembro-me da mãe de uma menina que insistia em que ela entrasse na escola ao mesmo tempo que a abraçava angustiada", conta o pediatra Leonardo Posternak. Apesar do apoio dos educadores, a determinação dos pais é essencial. “A Natália é tímida e fica aos prantos quando eu saio. Mas não posso esmorecer”, reconhece a mãe, a arquiteta carioca Andréa Veras de Oliveira Mendonça. Andréa passa horas na escola com a filha de três anos. Como tantas mães, ela vive o desafio de admitir que a ausência materna ou paterna pode ser benéfica. É na escola que as crianças aprendem a dividir, a sentir saudade, a resolver conflitos, a desculpar e a pedir desculpas, a brigar e a chorar. Perceber a importância dessas experiências é a senha para transformar os momentos na escola em alegria. "É preciso entender esse período como a conquista da autonomia, da identidade da criança", conclui Ana Olmos. E sem pai nem mãe para pegar no pé.
LUCIANA FRANCA
Colaborou Camilo Vannuchi
ISTOÉ/1946 – 14/02/2007

